Especialista em educação financeira, Cynthya Benevides analisa os fatores que impulsionam o endividamento e apresenta caminhos para recuperar o equilíbrio financeiro
O Brasil vive um cenário que desafia a lógica econômica e desperta preocupação entre especialistas. Mesmo com o crescimento da renda média das famílias nos últimos anos, o número de brasileiros endividados continua aumentando de forma expressiva. O fenômeno revela que receber mais dinheiro não significa, necessariamente, conquistar estabilidade financeira. Para a administradora de empresas e pós-graduada em Educação Financeira e Gestão Pública, Cynthya Benevides, o problema está menos relacionado ao valor que entra no orçamento e mais à maneira como as pessoas administram seus recursos. Segundo ela, compreender os fatores comportamentais por trás das decisões financeiras tornou-se indispensável para enfrentar um dos maiores desafios econômicos das famílias brasileiras.
De acordo com Cynthya Benevides, a renda das famílias brasileiras alcançou, em 2025, o maior patamar da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE. Apesar desse avanço, o crescimento da renda não foi acompanhado por uma melhora proporcional na saúde financeira da população. Enquanto os rendimentos aumentaram, o percentual de famílias endividadas saiu de aproximadamente 59% em 2016 para mais de 80% em 2026, indicando que cerca de oito em cada dez lares brasileiros convivem atualmente com algum tipo de dívida. Para a especialista, esse cenário evidencia que o equilíbrio financeiro depende de fatores que vão além do salário recebido.
“As finanças comportamentais demonstram que emoções, hábitos, crenças e até a influência das redes sociais exercem forte impacto sobre a maneira como as pessoas consomem. Muitas vezes, o crédito é utilizado sem que haja uma análise cuidadosa sobre juros, prazo de pagamento e custo total da dívida. O problema não está apenas em quanto se ganha, mas principalmente em como esse dinheiro é administrado”, afirma Cynthya Benevides.

A especialista explica que um dos erros mais frequentes entre famílias que possuem boa renda é acreditar que um salário elevado elimina a necessidade de planejamento financeiro. Na prática, muitas pessoas deixam de acompanhar seus gastos, não estabelecem metas de curto, médio e longo prazo e acabam elevando continuamente seu padrão de vida. Esse comportamento, conhecido como inflação do estilo de vida, faz com que qualquer aumento de renda seja rapidamente absorvido por novas despesas, impedindo a formação de patrimônio e de uma reserva para situações inesperadas.
Segundo Cynthya Benevides, viver constantemente no limite também está relacionado ao consumo impulsivo motivado por fatores emocionais. Compras realizadas para aliviar ansiedade, estresse ou para atender padrões de status acabam comprometendo o orçamento de forma silenciosa. “A diferença entre quem constrói patrimônio e quem permanece pressionado financeiramente não está somente no valor da renda, mas na qualidade das decisões tomadas diariamente. Pequenas escolhas repetidas ao longo do tempo produzem grandes resultados, positivos ou negativos”, destaca.
Outro fator decisivo para o crescimento das dívidas é a facilidade de acesso ao crédito. Cartões de crédito, empréstimos pessoais, financiamentos e compras parceladas ampliaram o acesso ao consumo e facilitaram a aquisição de bens e serviços. No entanto, essa praticidade também criou a falsa percepção de que existe mais dinheiro disponível do que realmente há. Para a especialista, quando o pagamento é adiado, muitas pessoas deixam de perceber o impacto financeiro imediato daquela decisão, favorecendo compras impulsivas e comprometendo a renda dos meses seguintes.
“O crédito é uma ferramenta importante quando utilizado com planejamento. O problema surge quando ele substitui a organização financeira. Modalidades como o crédito rotativo do cartão e o cheque especial possuem juros extremamente elevados, fazendo com que pequenas dívidas cresçam rapidamente. O consumidor precisa compreender que parcelar uma compra também significa comprometer parte da renda futura”, observa.
Para as famílias que já enfrentam dificuldades financeiras, Cynthya Benevides recomenda iniciar o processo por um diagnóstico detalhado da situação econômica da casa. Ela orienta que todas as receitas e despesas sejam registradas, permitindo identificar desperdícios e oportunidades de economia. Após esse levantamento, torna-se possível reorganizar prioridades, reduzir temporariamente gastos não essenciais, renegociar débitos e evitar novas dívidas durante o período de recuperação financeira.
A especialista também destaca que buscar novas fontes de renda pode acelerar significativamente esse processo. Trabalhos complementares, empreendedorismo e monetização de habilidades pessoais representam alternativas que contribuem para ampliar a capacidade financeira da família sem depender exclusivamente do salário principal.
Paralelamente, desenvolver hábitos de consumo mais conscientes é essencial para que os resultados conquistados sejam sustentáveis no longo prazo.
Como estratégia prática, Cynthya Benevides sugere que as pessoas utilizem ferramentas digitais para compreender melhor seus hábitos financeiros. “Uma prática simples é baixar a fatura do cartão de crédito em PDF e utilizar recursos de inteligência artificial para solicitar uma análise dos gastos recorrentes, das compras por impulso e das despesas que podem ser reduzidas. Muitas pessoas se surpreendem ao descobrir quanto do orçamento está sendo direcionado para despesas que pouco contribuem para seus objetivos financeiros”, explica.
Para a especialista, a educação financeira desempenha papel decisivo na prevenção do endividamento e deve começar ainda na infância. Ela lembra a reflexão da escritora Lya Luft de que “a infância é o chão que pisaremos pelo resto da vida”, destacando que muitas crenças relacionadas ao dinheiro são formadas nos primeiros anos de vida. Experiências de escassez, abundância, insegurança ou estabilidade financeira influenciam diretamente a forma como adultos consomem, investem, poupam ou se relacionam com o patrimônio.
Cynthya Benevides cita ainda o clássico Experimento do Marshmallow, conduzido pelo psicólogo Walter Mischel na década de 1960, na Universidade Stanford, com crianças de 4 a 6 anos, que demonstrou a importância da capacidade de adiar recompensas em favor de benefícios maiores no futuro. Para ela, esse conceito permanece extremamente atual em uma sociedade marcada pelo consumo imediato e pela constante busca por gratificação instantânea.
“Construir uma vida financeira saudável exige disciplina, planejamento e autocontrole. Como ensina Provérbios 21:5, os planos do diligente conduzem à abundância, mas a pressa leva à pobreza. O patrimônio não surge de grandes acontecimentos isolados, mas da soma de pequenas decisões conscientes tomadas todos os dias”, conclui.